Não ser hétero não é fácil. Todo mundo sabe. Um garoto negro, por exemplo, se for chamado de “macaco” na rua, quando chega em casa, recebe apoio dos pais. Um garoto gay, chamado de “viadinho” nas ruas, quando conta pros pais, pode muito bem ouvir um “bem feito, por que não vira homem?” Geralmente, aos berros. Eu tenho pavor de gente que grita comigo.
Uma vez, um médico claramente homofóbico, me disse que TODO homo tem algum tipo de problema psicológico. Também pudera, crescer ouvindo que o que você é, que não passa apenas de mais uma característica sua, não a sua totalidade, é motivo de vergonha alheia, e também sua, não é pra qualquer um. Muitos adolescentes gays, cansados de anos de descaso e desprezo, não aguentam a pressão e se matam.
Mas aí, sofremos eu, você e todo o mundo. Ser mulher hétero também não é fácil. Só eu conheço duas mulheres que, uma tem um filho do próprio pai, e a outra, do avô! O tal médico idiota se esqueceu de mencionar que todo homem hétero pode ter algum tipo de problema, como ser um monstro estuprador, por exemplo.
Acontece que alguns homos usam como desculpa, ou válvula de escape, essa opressão toda como motivo pra atazanar a vida dos outros. Do tipo, “Ah, ouvi a vida inteira que sou ‘bicha louca’, deixa eu ser então”. E dá-lhe encheção de saco. E essa neurose se manifesta das mais diversas formas, depressão comunitária - aquela que o homo TEM que lhe contar que, puxa, como ele sofre - ou uma ironia iconoclasta que dá nos nervos.
A Internet parece ser o palco predileto dessas criaturas. Cheias de coragem por terem apenas tela e teclado à frente, elas despejam seu repertório de paranoias. Um tipo em especial, aquele que te ama e por ser sofrido e, ainda assim, conseguir te amar, ainda que através do computador, ah essa pessoa TEM que ser amada de volta, correspondida, entendida, finalmente.
E as coisas não são assim. Nem na Internet, nem na vida real, nem no raio que o parta. Eu conheço gay que sofreu pra caramba pra ser o que é e nem assim se transformou numa caixa de Pandora ambulante. Porém, nos dias de hoje, o “homo sofredor” parece que virou o mais novo mártir da desesperança. E é um azar se deparar com um tipo desses.
Escrevo blogs desde 2007 e já passei por alguns infortúnios. Na maioria das vezes, tiro de letra, porque aos 42 anos, reconhecer gente pau-no-cu virou meio que um hobby. Às vezes, eles aparecem de montão, daí eu fico desanimado porque me parece que estou falando de possibilidades pra quem não quer saber delas, e sim dos seus contrários.
E é impossível ser feliz querendo trocar a sua tristeza pela tentativa do outro em querer lidar com as suas próprias mazelas. Ou trocar a sua carência obrigando o outro a lhe dar atenção. Relacionamentos sadios exigem trocas justas, não terrorismo afetivo. Pra esses, algo tipo, “I’m not your bitch, don’t hang your shit on me.” Clichêzão usar citação em inglês, ainda mais da Madonna, mas é só pra irritar de volta.
E o mundo, virtual ou não, está cheio de homos-bombas, prontos pra explodirem de raiva e levar você junto. Mas comigo isso não rola. Quem me lê sabe que falo bem tanto de amor quanto de solidão porque amo o fato de estar sozinho há tanto tempo sem perder meu amor-próprio, que a solitude não é um sintoma, é uma condição temporária. Até que minhas companhias sejam apenas isso, aquelas que participam das ocupações, das atividades, das aventuras e desventuras, ou do destino de outra pessoa, não, obrigado, tô muito bem sozinho.
Fechei a porta pra quem atrapalha. Tanto que sobra pra atrapalhar até a vida do outro. Essa porta na qual eu estou por trás não pode ser aberta com as chaves da violência sentimental. Se alguém quiser vir pro lado de cá, vai ter que entrar sem bater.